Você já teve a sensação de estar presa? Eu sou a princesa presa na torre.
Quando eu tinha apenas quatro anos, minha mãe foi escolhida em casamento pelo príncipe Ricardo XVII, chefe das terras de Midland. Minha mãe não teve outros filhos e eu me tornei a única herdeira ao trono. Rei Ricardo, apesar de detestável como rei, se mostrou um pai amável e cauteloso, quando minha mãe desfaleceu aos meus sete anos.
O problema veio aos meus oito, em uma carruagem de ouro com um cocheiro de barba longa. Uma condessa das terras altas chegou ao palácio com uma proposta atraente ao rei Ricardo. Em troca de torná-la sua rainha, Ricardo teria a devoção completa dos moradores das Terras altas governadas por Antonio I, pai da condessa e, com isso, o comércio poderia se expandir facilmente por todo o continente.
A condessa Alexandra se tornou a rainha e única herdeira do trono, por que a filha mais velha do rei, eu, havia desaparecido no lago. Enquanto o cocheiro e a rainha se encarregavam de espalhar a terrível notícia da minha morte – uma mentira, por sinal – eu estava aprisionada no alto de uma torre, tendo a própria rainha como minha carcereira.
Envenenando meu rei, dia-a-dia, com pequenas doses de veneno de rato, ela ficava mais e mais poderosa tendo a devoção do povo voltada para si. Quando Ricardo desfaleceu, perdi quase que por completo minhas esperanças de ser salva. Estou até hoje presa na tal torre.
Hoje é só mais um dia como outro qualquer, e eu não espero que nada demais aconteça, e diferente dos outros dias, hoje aconteceu. Sentei a janela cedo e cantei uma triste canção pra tirar aquele peso do coração, e enquanto eu cantava, ouvi uma voz. A voz que chamava por uma princesa. Corri a janela e o homem olhava para cima:
- O que fazes tu aí em cima, ó formosa dama? Deverias estar aqui deixando que as flores te invejem e que eu te galanteie.
- Quem me dera, gentil senhor, mas estou presa aqui faz muitos anos.
- Eu não posso escutar-te daqui debaixo. Deixa-me subir? – O homem observou a torre e depois completou; - mas não há portas!
- Nem janelas baixas! Não sei como deixar-te entrar.
- Não se aflija, ó adorável donzela, jogue suas tranças que eu chegarei até você!
Joguei minhas tranças pela janela, e o homem subiu por elas, até mim.
- Ora! Mas quem diria? És ainda maior beldade de perto do que de longe! Como nunca te vi cruzar pelo reino?
- Já te disse, cavaleiro, sou aqui prisioneira.
- Por que não foges?
- Não há portas, cavaleiro.
- Sinto informar-te, mas não possuo tal posição de cavaleiro. Sou Arthur, filho de Zacarias. E tu quem és?
- Rapunzel, filha de Ricardo XVII.
- Filha do falecido rei? Rapunzel...
- Eu gostaria de tua ajuda, mas com Alexandra em Midland, dariam por minha falta antes mesmo de me permitir fugir.
- A rainha?
Ouvi Alexandra chegar, seus passos ecoavam na minha mente e pelas escadas da torre.
- Tens de fugir, Arthur. Ela está chegando!
- Sim, eu vou. Mas, voltarei minha dama. E te salvarei. Prometo!
Arthur pegou minha mão e beijou-a, depois partiu descendo a torre pelas minhas tranças. Mal ele fora embora, Alexandra adentrou meu quarto:
- Que fazes nesta janela, insolente? Não vai responder? O gato comeu-te a língua? Pois bem, fique aqui sem ceia e podes voltar a se lamuriar na janela. Não sonhe demais, Rapunzel, sonhos são o caminho do fracasso.
Arthur voltou no dia seguinte, e no dia depois daquele, e no outro, e no outro... Sentia-me grata com todos os Deuses pela alegria que ele trazia. Sua voz e coragem eram um sopro de felicidade na minha vida. Fazíamos planos pra quando fossemos fugir e ele me ensinava a tocar flauta. Não conseguia compreender por que ele não me ajudava a fugir logo, então perguntei-lhe:
- Por que não me tira desta torre?
- Não é por falta de amor ou coragem da minha parte, Rapunzel, mas seria perigoso fugir sem um plano perfeito. Não quero arriscar te perder...
- Alexandra está voltando! Desça, vamos, desça.
Antes de descer, voltou a sentar a janela e me disse:
- Eu voltarei, Rapunzel. Todos os dias até poder te levar comigo.
E me beijou os lábios. Nunca havia sido beijada antes, e quando ele me tomou nos braços, esqueci que a madrasta subia as escadas, esqueci do perigo, esqueci de tudo. Ele se foi, descendo a torre pelas minhas tranças e eu me virei para Alexandra, sem jamais tirar Arthur do pensamento. Tomei coragem e perguntei ao monstro que me deixava presa:
- Alexandra, por que tu não me deixas sair?
- Deonde vem toda essa fome por liberdade? Tu não eras assim...
- Eu quero ver o mundo! Deixa-me ir, quero conhecer a praia e tocar flauta!
- Flauta, Rapunzel?
- Eu conheço algumas coisas...
- Não minta, Rapunzel. Vós não podeis mentir para mim.
Quando me vi, estava presa a verdade em um feitiço, e não consegui mentir-lhe:
- Um homem que me visita me ensinou.
- Um homem? Um homem te visita quando não me encontro na torre? - Ela me bateu no rosto e me deixou cair no chão para depois levantar-me: - E como ele sobe a torre alta?
- Por meus cabelos.
- Pois ele se arrependerá de intrometer-se no meu reinado!
- Ele nada te fez, deixe-o em paz!
- Cala-te, sua insolente!
Naquela noite, Alexandra cortou minhas tranças, e me amarrou ao pé da cama. Adormeci somente de madrugada, exausta de tanto chorar pela segurança de Arthur. Na manhã seguinte, Arthur parou a minha janela e gritou:
- Rapunzel, Rapunzel, jogue suas tranças cor-de-mel.
Antes que eu fosse capaz de avisar-lhe que partisse, Alexandra tapou minha boca e lançou as tranças a ele. Alexandra lançou-o pela janela, sobre as roseiras e eu pude apenas ouvir seus lamurios de dor. Nada podia eu, a princesa presa na torre fazer.
Alexandra desceu atrás dele e ouvi gritos e sons de metal se batendo. Eles estavam lutando, mas presa a cama eu nada podia fazer, arrastei-me com cama até onde consegui. Os sons haviam cessado.
E eu cantei, cantei pra ele, e passos subiam as escadas. Eu tinha medo. Era o velho cocheiro parado a porta:
- Eu já não lhe mandei ficar em silencio? Mas, você arruma confusão, Rapunzel! Por isso vou ter que te machucar muito. Você vai ter que morrer, por que você é uma menina muito, muito malvada.
E voltei a cantar. O cocheiro avançou na minha direção e eu lhe empurrei com os pés, fazendo isso eu quebrei a madeira da minha cama e soltei meus pés. Lancei-me sobre ele, mas ele era mais forte e me derrubou no chão. Foi quando Arthur entrou na sala e empurrou o cocheiro malvado pela janela.
- Venha! Vamos embora!
Corremos pelas escadarias o mais rápido que conseguimos, mas eu sentia que Alexandra estava atrás de nós.
- Deixe-me ir! Fique com o palácio, as jóias, o trono, fique com tudo só deixe-me partir!
A bruxa má assumiu a forma de um dragão asqueroso, coberto de gosma e musgo verde e lançou-se sobre nós. Arthur atingiu-lhe com a espada certeiro no coração, e o monstro caiu desfalecido no chão.
- De onde vieste com esta espada? Tu me disseste não ser cavaleiro.
- E não sou. Sinto muito, Rapunzel. Sou apenas um ferreiro.
- Jamais duvide de seu poder, vós salvastes-me da malvada rainha e agora estou livre para governar o povoado, de forma justa e honesta!
- Vais partir como prometeu a rainha?
- Não me curvarei diante de tão malvada criatura. Governarei o povo com o poder que é meu por direito.
- Mas, Rapunzel, não vai fugir comigo para longe? Vós não lembrais que planejamos...
- Sim, mas as situações foram alteradas, Arthur. Se quiseres, fique comigo, como meu rei, e governaremos Midlands e as terras altas...
- Não. Eu voltarei para o meu povo. Venha comigo, seja uma aldeã como o resto de nós...
- Arthur, alguém tem de governar o povo, e essa serei eu. Vós virais comigo, ou não?
- Não.
- Então não conte a ninguém a minha história e te deixarei partir.
Ameacei-o com minha adaga apontada para seu pescoço.
- Não contarei nada a ninguém, Rapunzel. Nunca mais.
E Arthur partiu pela mesma estrada pela qual ele vinha todos os dias. Nunca mais vi o ferreiro novamente, e nunca me disponibilizei a procura-lo.
Meu novo marido e rei, conde Eduardo II foi homenageado não só por ser o novo rei, mas por me salvar, princesa Rapunzel, de um terrível dragão. É assim que nós rainhas e princesas vivemos dia após dia, e é essa a história que passaremos de geração em geração, afinal, nenhuma rainha deve se ver envolvida com um mero e fraco ferreiro. Esse é o meu segredo, e não diz respeito a ninguém por que, no final, todos nós viveremos felizes para sempre.
Não é?
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